- Por que você não gosta de pessoas?
- Pessoas são prepotentes e idiotas.
- Prepotentes? Sim…mas o que é ser idiota?
- Deixa eu ver… (ele olha pra rua). Daqui a pouco alguém faz algo idiota, você vai ver…
Minutos depois passa uma limusine com um cara quase saltando do teto solar, acho que havia também uma moça. Um cara da mesa ao lado grita: “Seu brocha!”. Pergunto:
- Isso é idiota?
- Não, mas o cara da limusine é.
- ‘Realmente…’
Tenho um amigo que considero uma figura bem peculiar. Com 22 anos é rabugento, velho, impaciente. Chato, todos dizem, inclusive eu. Ele sabe de tudo isso e não se importa nem um pouco. Eu admiro sua indiferença à opinião alheia, mas vejo o quanto essa posição o torna insensível demais aos sentimentos dos outros.
“Ah, é que ele é arrogante, né?” – me diz a namorada, dando uma explicação para algo que me foge da memória agora. “É, ele é…”
Um nerd, é isso. Desde antes do colégio já era um corpo estranho na sala de aula. Tirava as melhores notas, era o gordinho zoado, não gostava de esportes, ouvia rock clássico e assistia a filmes antigos. Devia ser o último a ser escolhido nos jogos de queimada, o que ele não me confirmou. “Eu era um freaky no meio de gente que ouvia Linkin Park e The Calling. Fui me juntar aos geeks. Me identifico com pessoas esquisitas.” O único esporte do qual gostava era aikidô; o que valia a pena mesmo era o prazer de derrubar os outros no chão. Ainda levava várias advertências na escola por bater nos amigos. “Eles vinham bater em mim de graça, eu ia ficar parado? Não! Revidava.” Juntava-se com outros pra fazer *tchutchu* (desculpe, mas só eu não conhecia essa brincadeira com nome engraçado?) até deixar o menino com a boca sangrando.
Hoje é um tremendo de um bicho-preguiça. Aficcionado por cinema, é editor de uma revista eletrônica sobre o assunto. Não comece a falar de Zé do Caixão, Guilherme de Almeida Prado e filmes B, senão ele não pára. “Isso é genial!”, “Aquilo é genial!”, “Isso é horrível!, “Aquilo é horrível!”. Ok…
- Você vai fazer o TCC com ele?
- Eu não! Ele vai fazer um almanaque de cinema lá…
- Almanaque, é lógico. Não precisa entrevistar um monte de gente, né, já que ele não gosta de pessoas.
- Mas ele gosta de entrevistar. Só que não pessoas…
- ‘Claro, vacas e cachorros devem render aspas bem mais interessantes”.
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Há uns dois anos e meio, esse amigo foi pra Londres estudar.
- Olha só, a gente vai anotar nossos endereços e você manda um cartão postal de lá, tá?
- Tá.
…
- Você acha que ele vai trazer?
- É óbvio que não.
…
Um mês depois ele voltou:
- Lari, tá aqui seu cartão postal. Não deu pra mandar de lá, ia ficar muito caro.
- ‘!!! Tinha até meu endereço escrito atrás! Ele está muito diferente’.
Não durou muito. Um mês depois regressava meu velho (no sentido de espírito) e rabugento amigo.
Gosto dele principalmente por não se encaixar no padrão ‘sou super feliz, super animado, super de bem com a vida, moderno, estiloso, proativo, tenho muitos amigos, saio todo dia, tudo vai dar certo no final.
“Lari, a gente tem bastante coisa em comum…”